quarta-feira, 29 de maio de 2013

XIII



Mas que graça tem essas ruas
essas casas,
essas pessoas,
esses dias,
essas noites,
todas as coisas comuns?
Que graça tem o normal?
Meus olhos não conhecem enseadas,
conhecem cobras de vidro.
Eu não gosto das palavras,
gosto das imagens que delas se formam.
Dizem que poeta enxerga além da realidade,
o que não é verdade.
Poeta não enxerga nada além do que qualquer pessoa comum
mas tem um sentimento para tudo aquilo que vê.


XII



De um rabisco vi sair um homem inteiro,
estava criando horizontes 
e ventando auroras.
Enquanto soprava vida
engolia o lápis pouco a pouco.
Fiquei cheio de abismos 
admirando a obra. 

XI



Tempo, tempo passa
O meu tempo se arrasta 
Tudo em volta de mim passa
Eu continuo aqui

Canto como canta o pássaro
No meu canto, canto
Passa o pranto, não demora
Chega a hora de dormir 

Venho de onde venho, vou
Chego sempre aonde estou
Calo o vento na calada 
Da noite de Mondesir

Vida não tem nada que a valha
Pena é que é tão pequena 
Tanta maravilha me atrapalha
O pensamento que é sentir

Coisa sem sentido a gente
Morrendo, amando inutilmente
Partido, o coração logo se sente 
Entregue a solidão

Ouça o choro quente da viola
A chuva fria do lado de fora
O meu cavalo tem certeza 
Quer sair daqui

Viajando desregrado prosa e verso 
Não sei saber onde termino, onde começo 
Te levo onde for 
Só não me diga aonde ir

X



Meus olhos tem mil mortes
Por mil causas
Cujos nomes eu não sei

Meus dias tem mil horas 
E não encontro tanto tempo pra viver
Minhas mentiras 
Com seus mil segredos 
Que eu não sei como dizer

A minha alma 
Cabe nos dentes do meu predador
E como pudesse enxergar 
Minha morte tem mil olhos
Que conhecem meus medos
E sabe os segredos 
Da vida e do tempo 
Pra falar de mil nomes 
Que eu não quero esquecer

IX



Eu corro pra lá
Eu volto pra cá
Sou água escorrendo
Em todo lugar
Danço
E não me canso
Mas nunca desvio o olhar
Clamo uma mancha no tempo
Onde eu possa dizer
Eu te amo
Pra sempre vou te amar

No espaço de um traço
No caminho de um risco
No poema te desfaço
No poema te recrio
Se são palavras seu contorno
É por ti que me apaixono

Não ligo de lhe esperar
Mas para além de toda beleza
Há sempre uma tristeza
A me maltratar
Pois sofrer
É o invevitavel veneno de amar

VIII




Meu coração é labirinto 
Tempestade de areia
Na imensidão da mente
Faca cega
Navega pela escuridão
À parte do mar de gente 
Aflito
Saturado de perdão
Perdido no conflito
Entre o Touro e a Rosa
Eu sou o Pão e a Fome

VII



E se os poemas fossem todos descartados?
E se os sonhos nascessem quebrados?
E se a dúvida for um pecado?
E se Deus é um menino mimado?
E se tudo que há de ser já é passado?
E se formos todos peões em um jogo de dados?
E se o mundo todo for um tablado?
Talvez eu já esteja morto, por descaso não fui enterrado.

VI




Quebro páginas e fujo
de tudo que ja conhecia. 
Rasgo as linhas
pra não me arrepender.
Mato o contexto
em favor do texto 
que acabo de escrever.

V



A correnteza entope as veias das pedras.
Salgando o perfume fino de pequena flor 
que se questiona:
"Serão as nuvens apenas sonhos?"
O silêncio indica o fim e o começo
de todas as dúvidas.

IV



Sabe-se dos vizinhos a fama.
Sabe-se das casas as varandas.
Sabe-se da vida até a morte.
É sabido também
que a grandeza do ínfimo
te aproximas da cama.
Em que percebes:
-Sou fruto do nome pelo qual me chamas.
-Sou pequena parcela da vida da qual reclamas.
-Quanta ironia, nós dois deitados na cama,
logo eu... um homem que não te ama!

III


Eu quero o silêncio
que a sua boca cansa de falar.
Quero o desespero do seu cheiro
no meu olhar.
Quero tudo como fosse
depois de acabar.
Nada me completa
quando meu barco é feito de areia
e seu navio está em alto mar.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

II






 Todos os dias chove.
Chuvas de palavras me completam.
Posso roubar a chuva das bocas
e derramá-la na folha
ou chorar alguma idéia 
que vá molhar outro papel


















I



Cá perdido estou
no vértice da idéia. 
Queria poder estar no ventre da língua,
assistir ao nascimento da palavra
e toma-la para mim.
Mas continuo preso no eqüinócio do verso,
onde a idéia é estagnada. 
Aqui só ouço matéria-prima.
As palavras me sussurram. 
Meu regalo é esculpi-las,
livrar-me do que não convém. 
Poeta é escultor de palavras 
e ministro da invenção.